• Antonio Ranieri

theater or not theater this is a question


Subir no palco nesse ultimo final de semana para apresentar o espetáculo "caio, quando o amor não vem", foi um presente e também um ato de resistência. No texto, há um trecho que diz o seguinte: "essa merda está fudendo todo mundo, exterminando uma geração que só quer amar, e ser feliz e mais nada. Está enterrando o nossos amigos e familiares em valas comuns e nós nem podemos velar. E o governo ignorante e fascista não faz nada. Eu não posso ser cúmplice e seguir calado. Eu não. Eu sou cabeça de boi, duro, eu insisto em continuar vivendo". E os que sucumbiram da noite pro dia vitima dessa doença? E as feridas que se abriram nos corações dos seus que aqui ficaram? "Por isso eu lanço amor as pessoas que estão lá fora", diz uma outra parte. E foi com muito amor, que eu me apresentei.



No lugar do público, bexigas. As portas fechadas. O café sem ninguém. Sem fila e bagunça pra entrar. Sem o burburinho das pessoas. Sem o terceiro sinal. Sem o pipoqueiro ou o cara do milho, que todas sessões estão lá, recebendo o publico. Ao meu lado, uma equipe reduzida, mascarada, sem abraço, besuntada de álcool gel.

Sentado no armário que aprisiona os sonhos do protagonista, eu vi um filminho passando na minha cabeça. Daquele menino cheio de ideais, que saiu da periferia para conquistar o mundo. E que depois de tantos anos engaiolando seus sonhos, quando decidiu finalmente escancarar tudo de vez, o mundo parou. Poderia ser mais uma história clichê, mas não era.

Foram 10 anos entre pesquisa e ensaio para realizar esse projeto, um pouco menos que a metade que eu tenho de carreira, um quarto da minha vida, dedicado a esse trabalho, que foi interrompido após três sessões. Assim como tantos outros projetos por aí. Um time de ponta ansiosos para ver a montagem ganhar assas. Interrompido.

Cinco meses atrás, com a ansiedade batendo a mil, eu quis trocar com outros artistas, saber como estavam se sentindo e se juntos poderíamos fazer algo, foi quando eu criei o projeto “Curtas Reciprocidades”. Foram 50 artistas convidados diretamente, sem contar outros tantos que ajudaram na produção dos filmes. Eu ganhei coisas com que esse projeto, que nunca conseguirei mensurar. Trocas que só foram possíveis dessa forma, e que me fizeram muito bem, preencheram os meus dias e me fizeram suportar o confinamento, pois eu sabia que não estava sozinho.

Porém, eu não parava de pensar no Caio, e isso me deixava triste, incomodado, prostrado. Eu queria me apresentar, mas eu tinha dúvidas. Medos. Ainda mais com uma peça que eu mal tinha estreado presencialmente, fazer virtual?

Com a faca entre os dentes eu decidi encarar o desafio, e transpus o espetáculo para os moldes “digitais”. Eu tinha um bom argumento: a festa dos meus 40 anos. Tão sonhada, mas que também teve que ser repaginada. E claro, eu também pensava como monetizar um trabalho que tinha sido um baita prejuízo. A minha única preocupação era entreter o público. Fazer com que a história chegasse, que eles se emocionassem, se divertissem, e dançassem em suas casas o melhor da década de 80. Em nenhum momento passou pela minha cabeça se o que eu estava fazendo era ou não era teatro, pois era, é. Eu sei, eu fiz. E não fui o primeiro e nem o único, o que me deixa emocionado, pois só os quem estão vivendo isso na pele, nesse momento da história, absorve a experiência.




Nada substitui o estar presente, juntos, no mesmo lugar. A experiência do AO VIVO. O calor do público, os olhares, aquela tosse no meio do nada, a gargalhada alta que escapa, o ranger das poltronas, os abraços no final, a cerveja na porta do teatro enquanto ouvimos as críticas, o jantar após a sessão no restaurante apoiador e a baladinha pra lançar e comemorar mais um trabalho. Tudo bem que isso não acontecia mais com tanta frequência, por causa da idade (risos).

O número de artistas, técnicos, produtores, trabalhadores da cultura, direta e indiretamente, desempregados por causa da pandemia é gigante. As pessoas estão passando fome. Felizes, são aqueles que estão conseguindo uma ajuda aqui outra ali. Graças a deus surgiram apoiadores, ongs, fundações, colaboradores que estão fazendo trabalhos lindos. Muitos como eu, não conseguiram o auxilio do governo, porque lá em 2018 ganharam um pouco mais. Sim, 2018, há dois anos atrás, como se o “pouco mais” recebido lá atrás, fosse o suficiente para hoje estar passando ileso por esse caos. Prefiro nem citar a lei de auxilio aos artistas, que como já estamos prevendo, beneficiará os mesmos de sempre.

Aos poucos, nós começamos a nos unir, nos fortalecer, nos ajudar da forma que conseguimos. Fosse com dinheiro, com uma cesta básica, uma palavra amiga, um abraço virtual, um grupo de leituras dramáticas. E sim, eu estou falando só sobre o meu mundo, do tamanho de uma ervilha, que é como eu chamo o nosso meio cultural. Pois é nesse lugar que eu habito, e tenho o poder de fala. Em nossa bolha, todo mundo se conhece, mas antes disso tudo acontecer, parecia que os holofotes nos cegavam. Mais um bônus que brotou da peste. Nós começamos a nos enxergar e dar as mãos. Nós que somos o alvo número um desse desgoverno genocida. Que nos persegue diariamente, e tenta a todo custo nos calar. Acabando com todos os tipos de apoios, incentivos, rasgando leis, disseminando o ódio. Nós que somos responsáveis, por produzir cultura para confortar milhões de pessoas que estão enfurnadas em suas casas com medo, ou estavam, não sei mais, pois parece que o isolamento acabou, e eu não fiquei sabendo, tendo em vista as praias, bares e baladas lotadas.

Nós fomos os primeiros a parar, e seremos os últimos a retornar, e até as coisas voltarem a ser como era antes, se é que isso vai acontecer, como nós sobreviveremos se não for fazendo o que sabemos fazer? Nós que não somos famosos, e não seremos contratados para colocar os nossos espetáculos em certas plataformas, que só os que tem milhões de seguidores serão? Nós que não teremos cachês milionários para estrelar comercial de banco? Nós que somos “ratos de teatro”, que só fazemos isso, e gostamos de fazer isso e fazemos bem isso? Nós que não pertencemos a uma elite que pode proferir impropérios do que é ou não é certo, do que deve ou não deve ser feito, se isso ou aquilo? A coisa que eu tenho mais pensado nos últimos tempos, é o que eu tenho que fazer para me reinventar? Logo eu que só sei atuar e dirigir e escrever e produzir, criar cenário, figurino, luz, som, trilha, carregar caixas, fazer compras na 25 de março e Santa Efigênia, administrar bilheteira, cuidar de borderô, varrer palco, dar aula, divulgar e vender espetáculos, planejar turnê, escrever projetos e não ter vida social? O que devo fazer? Cruzar os braços? Esperar? Eu não sei. Sei apenas que eu sou cabeça de boi, duro, insistente, e continuarei fazendo.

Antonio Ranieri

01/09/2020



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